Um anticorpo biespecífico já aprovado no Brasil reduziu em 71% o risco de progressão da doença ou morte em pacientes com mieloma múltiplo recidivado ou refratário. Os dados foram publicados na última sexta-feira (29) no New England Journal of Medicine.
O ensaio clínico testou o teclistamabe em 162 centros de 24 países — com participação brasileira — em pacientes que já haviam passado por uma a três linhas de tratamento anteriores.
A taxa de sobrevida livre de progressão em 18 meses foi de 69,8% no grupo da imunoterapia, contra 26,9% no grupo controle.
Como o medicamento age
O teclistamabe pertence à classe dos anticorpos biespecíficos: age conectando uma proteína chamada BCMA — presente nas células do mieloma — às células T do sistema imunológico. Essa ponte induz o organismo a reconhecer e atacar diretamente as células cancerígenas.
O ensaio clínico envolveu 593 pacientes com mieloma múltiplo recidivado ou refratário, todos previamente tratados com lenalidomida e anticorpos anti-CD38. Após acompanhamento mediano de 17,3 meses, a sobrevida global em 18 meses foi de 79,2% entre os que usaram teclistamabe, ante 68,6% no grupo controle.
Uso mais precoce como estratégia
Para Jayr Schmidt Filho, líder do Centro de Referência em Neoplasias Hematológicas do A.C.Camargo e coautor do estudo, os resultados estão entre os mais relevantes já observados no cenário do mieloma recidivado. “O intuito do estudo era mostrar se tratar o paciente mais precocemente melhorava os resultados. E a resposta é sim”, afirma.
Schmidt avalia que os dados têm potencial de influenciar futuras diretrizes clínicas e ampliar o uso do teclistamabe para linhas mais precoces. O medicamento já tem aprovação da Anvisa no Brasil, e a expectativa é que os novos resultados apoiem uma futura ampliação de indicação.
Riscos e limitações
Os resultados positivos vêm acompanhados de um alerta: infecções graves foram mais frequentes no grupo do teclistamabe. Infecções de grau 3 ou 4 ocorreram em 41,6% dos pacientes que usaram a imunoterapia, ante 29% no grupo controle. Também houve mais mortes relacionadas a infecções nesse grupo.
Schmidt pondera que parte dos estudos iniciais foi conduzida quando os médicos tinham menos experiência no manejo desses riscos. Hoje, medidas preventivas são consideradas essenciais: vacinação antes do início da terapia, profilaxia contra infecções e reposição de imunoglobulina. “Isso não elimina as infecções, mas reduz principalmente as formas mais graves”, diz o hematologista.
Há também um limite importante na generalização dos dados: nenhum participante havia recebido terapias dirigidas ao BCMA anteriormente. Pacientes previamente tratados com medicamentos dessa classe — incluindo CAR-T — não estão representados no estudo, e os pesquisadores ressaltam que o benefício observado pode não se aplicar a eles.
O teclistamabe mira a mesma proteína-alvo das terapias CAR-T — cujo acesso no Brasil ainda esbarra em custos que podem chegar a R$ 4 milhões por dose. À medida que esses tratamentos forem usados cada vez mais cedo, o sequenciamento entre eles deverá ser tema central dos próximos ensaios clínicos.
